Então, vamos ter mais um filho. Não, calma, minha gente, ainda não estou grávida. Mas está decidido e firmado. Ainda não é para agora, nem para o mês que vem, ou o outro, talvez ano que vem, talvez este ano. Mas, sim, já estamos planejando e muito. Coisa que não fizemos na primeira vez. Decidimos ter um filho e pronto, mês seguinte já estava grávida e só aí fui me informar sobre parto, o que era melhor... depois gêmeos e aquela confusão toda. E no final a preocupação com o enxoval parecia ser a mesma do que com o nascimento, vamos ser sinceras. Agora, apesar de já entendermos bem o processo, estamos planejando porque vimos o quanto isso é importante. Informação é a palavra. E temos pensado especialmente em parto. Afinal, o nascimento é o primeiro passo de uma grande aventura que é a maternidade e ele precisa ser firme.
No meus sonhos (e eles são muitos e constantes) quero um parto mais natural possível e para isso é preciso muito planejamento, busca pelos profissionais certos e conhecimento.
Nas últimas semanas, tenho pensado muito sobre parto e sobre como foi o das meninas, como eu sonhava com um parto normal gemelar e terminei na cirurgia cesariana que eu não queria. Existem mulheres que escolhem a cesárea e, tudo bem, não estou questionando uma escolha pessoal. Mas também existem aquelas que não sabem que há outra opção, que talvez não tenham se informado que o parto normal é isso, normal, natural, como deve ser.
E, para ter parto normal no Brasil, é preciso lutar por ele.
Não estou virando ativista, nem carregando bandeira, só queria poder dividir algumas histórias e experiências aqui no blog para mostrar que existem outros caminhos. Tenho uma amiga que quer engravidar agora e a primeira e única opção dela era a cesariana, ela mesmo me disse: "Mas eu não conheço ninguém que tenha feito parto normal". E a gente tem conversado muito sobre isso e as formas de nascer. Então, para ela e para outras mulheres que ainda não sabem o que querem fazer ou que direção seguir, vamos começar uma série de relatos de partos vaginais por aqui. E tem mais uma coisa: o relato é uma das minhas partes favoritas de ler em outros blogs de maternidade, o momento que você deixa de ser filha para ser mãe, então nada mais justo do que dividir outros neste espaço.
Para estrear bem, resolvi compartilhar a história da Luíza Diener, do blog
Potencial Gestante. O relato do nascimento do Benjamim foi um dos primeiros que eu li e simplesmente amo o jeito sincero que ela escreve e descreve tudo. Conheci a Lu na "esfera virtual" e agora posso chamá-la de amiga, que divide tantas preferências e pensamentos comigo. Estou tendo o privilégio de acompanhar a segunda gravidez dela de perto e daqui a pouco vou conhecer outra história tão lindamente escrita e vivida por ela, tenho certeza. Então, senta que lá vem texto (e para quem já leu no blog dela, reviva de novo, eu já li umas vinte vezes):
Primeiro encontro
minha intuição sempre foi de que o benjamin nasceria em agosto, não em setembro, conforme previsto.
as ecografias sempre acusavam uma semana a mais e minha médica, sempre
que me examinava, dizia que o bebê nasceria antes da data prevista, que
era 10 ou 11 de setembro.
aconteceu que quando estava quase completando 36 semanas a médica me
examinou e disse que minha barriga estava bastante alta ainda e que
deveria nascer lá pra 7 de setembro. ok.
quarta, 18 de agosto: é aniversário da minha irmã.
até então eu tinha bastante contrações (desde o 6º mês), mas sempre sem dor.
durante a comemoração do aniversário sinto algo bem parecido com uma
versão light de cólica menstrual (porque as minhas sempre foram punks):
um incômodo na lombar e uma dor no baixo ventre. até comentei com o marido: acho que agora o benjamin tá descendo.
passa a dor, passa o dia e na noite de
quinta, 19, sinto a mesma dor outra vez.
sexta, dia 20 à noite, a dor volta. passa. volta. sempre acompanhada de um endurecimento da barriga.
por puro desencargo de consciência resolvo verificar se as contrações
são regulares. mais ou menos: às vezes demoram 15 minutos para voltar,
outras 10 e de repente somem as dores e fica só aquela barriga dura. separo umas roupinhas que havia comprado/ganhado naquela semana pra lavar no dia seguinte.
sábado, 21. acordo, lavo a primeira maquinada,
estendo. passo o sábado passando roupinhas e separando por tamanho. lavo
a segunda maquinada e já é fim do dia quando estendo. a típica dor na
costela + dor na lombar. amanhã eu passo o resto.
domingo, 22 de agosto. cólica vai, cólica vem, barriga que endurece.
durmo até tarde e, depois que acordamos até comento com o marido: já
pensou que esse pode ser nosso último fim de semana assim? isso porque
eu estou apenas com 37 semanas.
13h: vamos almoçar na casa do meu avô.
comento que estou sentindo essa cólica chata e decido deixar de ser
besta e metida a resistente e ligar pra minha médica pra saber se posso
tomar algum remédio. ela está de plantão em um hospital e me chama para
dar um pulo lá pra me examinar: “2 a 3 cm de dilatação. seu bebê pode
nascer em até 72 horas. quem sabe mais”.
16h: saio do hospital com a sensação boa de que logo terei meu bebê nos braços.
passo na casa da minha mãe, pego uma mala maior, volto pra casa e começo
a resolver um milhão de coisas: roupas na gaveta, as que faltavam
passar, separar por tamanho, fechar a mala do benjamin e a minha. mas as contrações vão ficando cada vez mais frequentes e compassadas.
18h40: decido marcar o intervalo entre as
contrações: 2 a 3 minutos entre cada uma, com uma duração de 25 a 30
segundos. tomo banho e durante o banho percebo que não consigo fazer
nada na hora das contrações: toda vez que elas vêm eu tenho que parar o
que estou fazendo. a melhor posição é agachada (de cócoras). tento ligar pra uma doula (que ainda estava pendente) pra ver se ela
pode me acompanhar. não quero ir ao hospital à toa. ela está em um curso
e disse pra eu ligar por volta das 20h.
20h: doula ainda no curso. só sairá umas 21h. a essa
altura do campeonato as contrações já incomodam bem mais. ligo então
pra médica e informo: contrações de 2 em 2 minutos com duração de 30 a
60 segundos cada. ela pergunta: “dói muito?” e eu “não. dá pra aguentar”. ela diz que eu
posso esperar um pouco mais então (nas consultas eu deixei bem claro que
não queria ir pro hospital pra ficar de molho por horas e ela acabar
induzindo meu parto. por isso ela me fez esperar mesmo e eu achei foi
bom).
21h: “alô, doutora? acho que tá doendo muito” “tá
bem, luíza. vai pro hospital e pede pro plantonista te atender. avise a
ele que eu irei em seguida”. mala pronta, aproveitamos pra pegar o bebê conforto e outras coisas. vai tudo pro carro.
21h40: o médico de plantão me atende: 8 a 9
centímetros de dilatação: “sua médica já está vindo? liga pra ela vir
que eu já vou te encaminhar pro centro obstétrico”. “é agora”, pensei. subo na cadeira de rodas e me sinto chique. nunca me internei, muito
menos fui carregada pra cima e pra baixo em uma cadeira de rodas.
daqui pra frente a noção de tempo fica distorcida.
vou pro centro obstétrico, pra sala de pré parto. parece que ninguém
entende por que estou lá, visto que, quando as contrações não vêm, fica
tudo bem. quando vêm, eu apenas respiro bem fundo e expiro como quem
quer mandar a dor embora (nisso as aulas de ioga – apesar dos gases –
me serviram bem). não consigo pensar na dor que sinto ou na pior que
ainda virá. só penso: “o benjamin tá chegando! logo vou estar com ele!” e
choro de alegria.
na sala tem bola, banquinho e sei lá o que mais, mas eu quero mesmo é ficar deitadinha.
chega o marido, fica bem quietinho do meu lado de mãos dadas: “ele tá vindo!”, digo.
vontade constante de fazer xixi. pra piorar, cocô também.
vou ao banheiro, volto.
a médica chega, faz o toque: dilatação completa, colo apagado. mas eu
não to achando que vai sair agora. espera mais um pouco. posso ir ao
banheiro? quero fazer cocô!
é normal mesmo. sinal de que o bebê tá quase saindo.mas eu quero ir ao banheiro! tá, cuidado pra o bebê não sair na privada.
tudo bem, melhor ainda! vou levar o marido pra aparar, tá?
volto pra sala de pré parto e a médica já mandou preparar a sala de parto.
aí me dá a louca (acho que vontade de que a coisa aconteça de fato) e pergunto se já posso ir. ok. lá vamos nós.
a sala de parto tem cara de tudo, menos de sala de parto. uma maca no
meio dela, uma mesinha no canto, uma bola verde e uma daquelas luzes
móveis de hospital que ficou apagada o tempo todo.
a maca inclina e tem uma barra na frente que dá pra segurar. legal!
e agora? o que eu faço? quando vier uma contração você faz força como quem vai fazer cocô.
li um livro dizendo que a gente não pode envergar as costas pra trás,
senão atrapalha a passagem do bebê. tem que manter ela reta, como se
tivesse uma linha puxando o umbigo pro teto. na verdade era essa força
que eu tinha que fazer, mas fiz a do cocô mesmo. só lembrei de deixar a
coluna reta e de respirar bem. nada de cachorrinho.
não lembro de mais ninguém na sala. não tem marido, não tem enfermeira.
só a médica e eu. quer dizer, eu só lembro da médica porque ela faz
questão de ser lembrada.
quando vinha a contração, ela enfiava o dedo na minha vagina e abria:
“to vendo ele vindo! faz força!” e até agora a bolsa não rompeu.
eu queria que ela rompesse na hora dele sair, pra ajudar na passagem. e
também ouvi dizer que têm mulheres que expulsam o bebê com bolsa e tudo,
igual cachorrinho. mas claro que isso é uma péssima ideia pros médicos.
ela menciona alguma coisa sobre anestesia. pergunto se a dor das
contrações pode ficar pior que isso e ela diz que não. então não quero.
quero sentir o que está acontecendo. quero saber a hora certa de
expulsar. me deixa!
se até a hora da expulsão eu era uma ovelha mansa, a rei leoa agora
incorporou com força. quero ganhar sozinha. não quero a ajuda de
ninguém. me deixa que eu vou saber o que tem que fazer.
mas a médica quer intervir. na hora da contração ela mete a mãozona lá
dentro e aí dói pra cacete. “vai! força força!” e eu: “me larga! sai!” e
começo a chutar ela. “não me encosta! isso dói!”.
briga vai, briga vem, ela pede pra estourar a bolsa. ai tá bom. vai logo. vamos acabar com isso.
parêntese: não queria que estourassem a bolsa,
mas na hora acabei concordando. só uma coisa eu achei legal nisso tudo: foi igual estourar um balão d’água gigante. claro que
de onde eu estava não dava pra ver nada, mas eu só ouvi o tchááá do
líquido no chão. foi uma diversão no meio daquilo tudo.
de volta à realidade, aí as contrações começaram a doer. e aí eu faço força pra valer.
é um berreiro só. quando ela me encosta o berro sai com vontade. gritei
como nunca antes na minha vida e, apesar de me sentir um pouco acanhada,
descubro que é a melhor coisa do mundo. não só o bebê estava
desentalando vagina abaixo, como a dor foi desentalando goela acima. não
só isso, parece que eu estou desentalando uma vida inteira. todo grito
contido foi saindo corpo afora. e sai cocô, sai xixi e aquela cabeça
começa a aparecer: “to vendo o cabelo dele! vai!”
mas logo em seguida: “ó, não vai passar sem corte. se não cortar, vai rasgar e vai rasgar de qualquer jeito. posso cortar?” que jeito, né? eu não queria, mas vamos logo com isso.
e ela taca uma injeção local de xilocaína que não pega. cacete de
agulha! aí ela fura de novo. juro. as agulhadas são piores que tudo.
parece que não pegou direito, porque eu sinto ela me cortando. a vontade
que dá é de dar um bicudo na cara dela e xingar de tudo que é nome. mas
eu só grito e continuo fazendo força.
parece uma eternidade, mas acho que não fiquei nem dez minutos na sala de parto.
“ó, vou colocar este pano na sua barriga pra apoiar o neném.”
aí de repente força força força
aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!! é a cabeça saindo. o tal do
círculo de fogo é um absurdo. uma dor enorme que dura pouquíssimos
segundos “sai! sai! sai, menino!” e pluft! o bebê escorrega.
22h42, a doutora canta.
na mesma hora colocam ele em cima de mim, que fica só miando num choro baixinho.
meu deus! esse é meu filho! jurava que ia chorar, mas fiquei meio
inerte, apenas admirando a coisa mais perfeita do universo que não é
somente meu filho, mas esse milagre da vida.
cortaram o cordão e agora beijinho beijinho tchau tchau. lá vai ele pra pediatria.
ué, mas eu não ia dar de mamar? no curso do hospital disseram que ele ia direto ao peito. não, não dá.
enquanto isso ela me diz que a placenta está saindo. mas já? não era
pra demorar uns 40 minutos? não a minha. a enfermeira começa a apertar
minha barriga e eu não deixo. deixa que eu faço força e ela sai. saiu.
deixa eu ver? ai que legal é uma placenta! um pedaço gigante de carne
vermelha com um fio grosso e roxo pendurado.
tá ardendo lá embaixo.
hora de dar os pontos. lembrando que eu não tomei anestesia e aquela
xilocaína não serviu de nada, eu consigo sentir cada agulhada. ai! para!
tá doendo pra cacete!
tá bom, acabou! vai pra recuperação.
22h50: me deitam ali num lugarzinho próprio e cadê
meu filho? tá na pediatria. fiquei anestesiada de tudo. o tempo parece
se arrastar sem fim.
toda hora que olho no relógio parece que ele quebrou. o tempo pirraça.
na mesma hora que cheguei pro parto, outra mulher chegou pra cesárea.
eu fui parir antes, mas ali, na recuperação, ela chegou um pouco
depois.
os minutos se arrastam e eu to que ouço um bebê chorar.
daqui a pouco chegam com a filha dessa mulher e o pai está lá também. a
filha dela mama e eu deliro entre o cansaço e a lucidez com a hora em
que vou dar de mamar pro meu filho também.
o bebê continua chorando. não é o dela, é o meu.
23h e tanto: vejo o hilan chegando com o benjamin no
colo e a câmera a tiracolo. me dá, quero tirar uma foto sua segurando
ele. na foto ele sai com cara de bravo e diz: ele tá com fome.
ali deitada mesmo colocam meu filho no meu peito e ele começa a mamar.
senti como se eu tivesse feito aquilo a vida inteira. o momento que eu
mais esperava chegou! meu filho tá mamando, sem problemas!
fico um tempo lá. já deu meia noite. agora eu posso ir pro quarto.
a motorista da maca é bem destrambelhada e me bate em cada porta que
passa. mais um solavanco pra entrar no elevador e eu sei que estou
chegando.
na ala da maternidade vejo um monte de enfeite de porta: beatriz, joão, sei lá quem. eita é mesmo! tinha isso!
me contaram que o benjamin nasceu roxinho, quase sem ar. também
fraturou a clavícula direita. isso é comum no parto normal. tá bem. é só
tomar cuidado que ele logo se recupera.
no quarto minha mãe me espera. depois chega a irmã. festa em família e
parece que nada aconteceu. o maior bate papo e a gente tira fotos.
no dia seguinte me liberam pra levantar e eu posso tomar banho sozinha,
cuidar dos pontos, me maquiar (sim, eu não abri mão da maquiagem).
logo logo to levantando e agachando. saio na terça de manhã.
apesar das intervenções, como valeu a pena ter um parto normal! é como quase nada tivesse acontecido.
todos os incômodos da gravidez foram embora e estou novinha em folha!
não chegou a ser um parto natural ou humanizados, mas foi o meu parto. meu e do benjamin!
terça feira, 24: tivemos alta. uma nova vida se inicia.
Nota posterior da Luíza: adorei reler meu relato de parto
justamente agora, que a hora do segundinho nascer se aproxima! mas
vivenciar tudo isso me fez querer ir além. me fez querer buscar por um
parto ainda mais humano não somente para mim, mas para meu bebê.
para o próximo não quero que me cortem, muito menos que me toquem.
os profissionais presentes estarão lá somente para me dar um suporte
caso realmente seja necessário.
não faço questão de um parto rápido
ou manteiga (mesmo que seria bom que isso acontecesse). hoje vejo que
intervenções como o corte da episiotomia e o rompimento da bolsa são
procedimentos padrões que muitos médicos adotam sem necessidade.
por isso, pra esse segundinho, resolvi me informar mais, para não ser
levada na conversa ali na hora. e, claro, fazer a minha parte e procurar
profissionais realmente qualificados e com a mesma linha de pensamento
condizente com a minha.
não quero ficar brigando com médico. quero um que pense parecido. que
reconheça a força que uma gestante e um bebê possuem e que acredite que o
nosso corpo é perfeito e sabe o que faz.
a gente tenta e torce para que algumas coisas ruins não se repitam e que as boas aconteçam novamente.
mas sei que cada gravidez é uma, cada bebê é um. e saberei respeitar tudo isso. por isso espero, também, ser respeitada :D
Para ler o post original da Lu
clique aqui
Esta não é a primeira vez que divido relatos de parto no blog, também tem outras duas histórias
aqui e
aqui