quinta-feira, 11 de julho de 2013

Parto meu - Relato do nascimento da Rosa

relato parto

Quem quer ter um parto normal e/ou natural no Brasil precisa passar por um longo processo de conhecimento. É como se fosse uma luta, mas na verdade, é preciso vencer várias batalhas. Fazer muita pesquisa, se rodear de pessoas que passaram pelo processo, procurar os profissionais certos, se preparar para gastar dinheiro (infelizmente), ler muitos relatos, vencer a dor, passar por horas de trabalho de parto e enfrentar seus próprios medos para trazer um bebê ao mundo. Há dois anos atrás eu fiz um post justamente falando sobre o começo dessas batalhas aqui. E acho que o primeiro passo é procurar o profissional certo. Não se deixar enrolar (papos como "não vamos fazer nada que faça o bebê sofrer" são típicos de cesaristas) conversar com outras pacientes do médico, buscar informações na internet sobre o profissional. Contratar um doula também é uma ótima opção e traz segurança. 

Acho que outro aspecto é saber o que é um trabalho de parto. Saber que as dores podem chegar meses antes, como um treinamento. Quando estiver perto, as contrações aparecem de tempo em tempo, e esses pródromos (fase latente) podem durar dias. Apenas quando as contrações estiverem em sintonia e bem compassados é que a hora chegou. 

Hoje o relato aqui é da Marina Guimarães, a Nina, que buscou, se preparou, ficou com frio na barriga, é claro, e conseguiu ter o parto normal para a pequena Rosa que acabou de completou um ano no fim de maio. Ela descreve com um sinceridade absurda e cômica como foi a antecipação do nascimento e todo o processo que ela e o marido passaram até conhecer sua primeira filha. E acho que a frase que ela escolheu para iniciar esse texto reflete muito bem o caminho que devemos traçar para iniciar na grande aventura que é a maternidade:

“tudo é uma questão de manter a mente quieta e o coração tranquilo...”

O nascimento da Rosa

Resumo
Parto natural hospitalar. Sem intervenções: quase sem ocitocina sintética, sem episiotomia, sem analgesia, sem estourar a bolsa, sem lavagem intestinal, sem raspar pelos e por aí vai..
7 horas de trabalho de parto ativo, 5 em casa e 2 no hospital. Considerando que o trabalho de parto começa quando as contrações se dão em intervalos regulares.
Expulsivo sentada em mesa de parto, laceração média.
Pré-história
Avó materna: três partos normais, sendo um domiciliar (por decisão, não por falta de hospital).
Mãe: um parto normal traumático no SUS, uma cesária intraparto (meu nascimento) e um parto normal relâmpago, quem nem deu tempo de escolher nada.
Irmã: 2 cesárias intraparto devido a sofrimento fetal.
Os partos familiares influenciam muito a visão e escolhas da grávida. Eu sempre quis parto normal porque entendo que é o melhor em todos os sentidos, mas sempre tive um medinho de não conseguir por causa das cesárias da minha irmã.
Antecedentes
Quando engravidei estava nadando duas vezes por semana. No 1º trimestre eu parei por medinho de perder, depois voltei e nadei até dois dias antes dela nascer. Fiz ioga para gestantes apenas no último mês, porque na correria não consegui me organizar pra fazer antes. Mesmo sendo pouco, foi essencial a troca de experiências e informações me deu mais segurança e confiança pra viver o parto.
Preparativos
Tenho tendência pra prisão de ventre, então no último mês introduzi activia na minha dieta diária. Fez toda a diferença!

Eu tinha pavor de chegar no hospital e parir na recepção porque o plano demorava pra aprovar o procedimento. o fato que poucos sabem é que os procedimentos aprovados pelo plano de saúde tem validade de 30 dias, então o parto pode ser autorizado e você tem 30 dias para parir. Na segunda-feira, 27 de maio, fomos ao hospital levar a guia e pedir autorização. Pegaram o papel e disseram que iam resolver, que não precisaríamos nos preocupar.

Quarta, 30 de maio de 2012
Nas últimas vezes que nadei tive uma sensação tipo uma “dor de viado”, achava que era normal e sem importância. Nessa quarta, não fui na natação pois estava sem carro (bati o carro 2 vezes durante a gravidez!). Fiquei na casa da minha mãe deitada vendo TV e tive a mesma “dor de viado”. Hoje eu interpreto isso como sendo algum tipo estranho de contração. Nada demais, fui pra casa dormir. 

Durante a noite acordei algumas vezes e todas as vezes estava com a barriga dura (contração indolor) fiquei com a impressão que passei a noite inteira em uma longa contração.

Quinta, 31 de maio de 2012
Acordei umas 7h30 e liguei para minha médica e contei tudo, ela disse pra eu caminhar e nos víamos mais tarde (já tinha uma consulta de rotina marcada para aquele mesmo dia). Comecei caminhando da 412 até a 410 pra comprar um treco e minha mãe me pegou lá pra me levar na consulta.
...pausa
Vocês devem estar se perguntando onde estava meu amado marido e pai dessa criança que nem me acompanha nas últimas consultas. Então, ele é quitandeiro, e vai pra CEASA todo dia às 4 da manhã.
voltando..
A obstetra disse que estava tudo bem, pra eu continuar ativa andando pra todo lado e que provavelmente nos veríamos a noite (Droga! Parto à noite é mais caro!)
Eu precisava comprar uns respiradores pros armários do quarto da Rosa. E lá fomos nós em peregrinação pelas lojas de ferragens da W3 sul. Entrei e sai mil vezes de cada loja não conseguia decidir qual eu queria, achava todos feios, nenhum tão bonito como os orginais. Andando, andando e tendo contrações aleatórias e pouco doloridas. Comprei o menos pior e fui almoçar na casa da minha mãe. Estava tirando a sesta quando veio a primeira contração forte e dolorida, deu vontade de ir ao banheiro (obrigada activia!). 

E daÍ pra frente vieram mais contrações doloridas, lá pelas 15h eu pedi pra minha mãe me levar pra casa. E minha mãe disse: "vamos aproveitar e levar o berço e as coisas agora". Até então o quarto da Rosa só tinha uma poltrona. Então, colocamos tudo no carro e fomos. Já em casa a gente monta o berço, sente uma contração aqui, outra ali, tem uma aula de parto com a diarista sobre posições adequadas durante as contrações, conversa vem conversa vai, contração vai contração vem.
Umas 17h, falo pra minha mãe que vou pro quarto, que a coisa tá esquentando, minha mãe e diarista vão embora. Estou eu e a casa, marido trabalhando. Foi às 17h que o trabalho de parto começou mesmo, contrações regulares. Após as contrações eu sentia um cansaço, como uma queda de pressão. Então, eu levantava da cama pra me agachar nas contrações e deitava nos intervalos.
De repente, veio um contração forte e eu vomitei tudo que tinha comido no dia, logo em seguida liga o marido perguntando se ele podia passar em um lugar antes de ir pra casa. Eu digo que "NÃO!" que era pra ele vir logo e limpar o meu vômito (ô dó! já começa a vida de pai assim). Vou tomar banho e deixo o fedor pra trás.
Enquanto tomava banho me veio a desconfiança de que o hospital não tinha aprovado o parto. Pedi pro marido ligar no hospital: e dito e feito, ainda não tinham aprovado, mas disseram no telefone que iam aprovar naquela hora. Fico brava, mas aliviada por saber que iam aprovar antes de chegarmos ao hospital. 

Dizem que ficar na água é super relaxante, eu não gostei, após as contrações eu só queria deitar. Meu trabalho de parto foi um "deita levanta". Ficar no chuveiro me dava mais moleza, sai e voltei pro quarto. Ficamos eu e ele deitados na cama em silêncio, não queria conversar, não queria comer, não queria nada. sempre que vinha uma contração, eu levantava e me apoiava na parede com as mãos e voltava a deitar quando passava. 

A orientação da minha médica era que eu fosse pro hospital quando estivesse com contrações de 3 em 3 min. Lá pelas 21h eu virei pro marido e disse “chega, não quero mais saber de contar contrações, quero ir pro hospital agora!”. A gente não estava contando com muita disciplina, mas já estava mais ou menos nos 3 min. Eu vesti o primeiro vestido q vi pela frente e falei “tô pronta! bora!” e o marido ficou mega enrolando pra se arrumar. Depois, ele me confessou que fez de propósito pra gente ficar mais tempo em casa e o trabalho de parto evoluir um pouco mais.
Agora vem a parte linda: ficar dentro de um carro tendo contrações sentada quetinha da 412 norte até a 716 sul, chegar no hospital e depois ficar sentadinha esmagando o braço da cadeira e fazendo caretas de dor, enquanto o marido estaciona e a recepcionista placidamente pergunta, como se nada estivesse acontecendo, meu endereço completo pra fazer meu check-in e pro mensageiro me levar pro quarto porque "sem cadastro completo não sobe". Lindo! Marido chega e eu peço pra ele terminar o cadastro enquanto eu vou pro quarto, pelo amor! 
22h, a maternidade estava lotada. Então me levam pra um quarto comum, peço ao mensageiro para virem medir minha pressão, ele diz que não dá porque meu prontuário ainda não subiu. Fico sozinha. Pouco depois chega o marido e depois a obstetra. No exame de toque a GO constatou que eu estava com 7cm de dilatação. Fiquei muito feliz, tinha medo de chegar no hospital pouco dilatada, o que poderia significar mais tempo de trabalho de parto no hospital. Não gosto de hospital e o parto foi a primeira vez na vida em que estive internada. A enfermeira olha pra mim e pergunta “você vai tentar parto normal? Tem outras duas gestantes tentado, mas acho que o médico não vai esperar, tá demorando muito”. Eu penso: “afe!”. Quase não lembro das contrações que tive no hospital, foi tanto vai pra lá e pra cá, e espera enfermeira e isso e aquilo que não foquei no TP.

Tive uma infecção urinária no início da gravidez, a famosa Streptococcus agalactiae, e por isso precisava tomar antibiótico (penicilina) durante o trabalho de parto. Minha GO pediu o remédio assim que chegou no hospital, mas o remédio não vinha. Obviamente a GO foi reclamar e disseram pra ela que tava demorando e era melhor subir pro Centro Obstétrico, que lá o remédio vinha mais rápido. E lá vamos nós, troca de roupa, espera enfermeira, senta na cadeira, espera elevador e espera a porta do CO abrir. Quando ela abre uma enfermeira diz que preciso tirar meus óculos porque não posso entrar com nenhum pertence meu, que loucura! Tenho que parir cega! Minha GO me defende e eu entro com os óculos. Não sei em que hora exatamente a Ana Paula chegou (a fotógrafa ana paula batista), mas nessa hora ela e marido tinham ido pra algum lugar onde vestiram roupas e toucas horríveis de hospital que serviram exclusivamente pra gente ficar feio na foto.

Então, me levaram pra área das cortinas (tipo uma enfermaria) onde as parturientes esperam a sua hora, onde fui apresentada à bola. Disse a GO: “senta aqui, quando a contração vier você me avisa”. Eu aviso, e ela fica me empurrando contra a bola, e isso não é legal. Depois de vários pedidos da GO alguém do hospital diz que eles não tem o remédio, está em falta. (onde estamos mesmo?! ah... em um “dos melhores” hospitais particulares de Brasília). Então, mandam outro antibiótico (amoxicilina), a enfermeira me espeta futuca futuca e nada, espeta de novo e nada. Minha GO perde a paciência, procura uma veia e manda a enfermeira furar ali, sucesso! Ufa, essa furação dói mais que contração.
E quando chegou a famosa vontade de fazer cocô, fomos para a sala de parto. 

Eu não percebi nem nada, mas na foto saiu um sangue, devia ser o tampão.

A sala de parto estava GE-LA-DA, sentei na mesa de parto e me cobri com vários lençóis. A pediatra diz; “você não vai poder ficar muito tempo com a bebê por causa do frio”, eu respondo “desliga o ar”, ela “não dá”, eu “então aumenta a temperatura” e ela “não dá”, essa é uma das maravilhas que o hospital faz por você, aconteceu exatamente o mesmo com uma amiga que teve PN lá.

E lá vamos nós fazer força. Marido do meu lado e plateia na frente (GO, 2 enfermeiras, pediatra e fotógrafa). A bolsa estourou no início do expulsivo. E lá estava o cucuruto da minha filha. Pedi pra Ana tirar uma foto e me mostrar, que emoção! Já estou com trezentos panos estéreis sobre minhas pernas, a única parte exposta é o buraco. 

Instruções: respirar fundo e quando vier a contração fazer um força longa, o máximo de tempo que conseguir. Certo! Sou obediente! Vem uma, vem duas, sei lá quantas, vai e vem. As enfermeiras em coro: “vai Marina! só mais um pouquinho, só mais um pouquinho!”. No fundo da minha mente eu pensava que essa era uma cena muito absurda. Aí vem a pediatra e fala pra GO que era melhor fazer episio, Hã?!. minha GO pergunta retoricamente: “Marina, vc não quer episio, né?”, eu: “NÃO!” e civilizadamente ela diz à pediatra que ela não tem nada a ver com isso e que os batimentos cardíacos da bebê estão ótimos. 

Não sei exatamente quanto tempo durou o expulsivo, mas foi rápido, achei que demorava mais. Minhas contrações não estavam tão longas, recebo um tiquinho de ocitocina (já tava com ponto mesmo). Não me lembro muito bem da sensação física, minhas mãos seguravam com força a manopla da mesa de parto, tensão nos braços. Era muita informação: enfermeiras e pediatra falando, luz forte, ar condicionado gelado, e isso e aquilo. E tínhamos que nos defender o tempo todo, certificar que não íamos sofrer interveções, isso demandou energia, atenção.
Só sei que em uma determinada contração ela saiu, veio pros meus braços chorando, e ela tinha cabelo (achava que ela ia ser careca)! 23h53! a menos de 7 minutos de 1 de junho. O meu corpo está exausto, como se eu tivesse empurrado sozinha a pedra do sepulcro. Desmonto, olho pra ela, olho pro marido, temos uma filha linda, melecada e saudável. Tento, mas ela não mama, ok. Depois de míseros minutos ela vai com o pai para os procedimentos.



Também não notei quando saiu a placenta. Deve ter sido quando ela estava no meu colo, não me lembro de ter nenhuma contração depois que ela saiu. Pedi pra ver a placenta, quis tocá-la. Fico lá, deitada, recebendo os pontos, converso sei lá o quê com a GO. Ela diz que tá fazendo "bem bunitinho preu ficar quase como era antes". Tive um laceração média, os pontos são incontáveis, os tecidos são costurados camada sob camada, pois cada uma rasgou de forma diferente. Meu corpo vai relaxando de esforço, estou bem. Antes de acabar a sutura, marido volta com a filha vestidinha em seu macacão branco, linda, fofa master. Felicidade e gratidão!



pós-parto
2 dias depois o leite veio. A cicatrização do perineo foi excelente. Hemorroida: alguns dias de pomada, banho de assento e pronto.

A Nina é super talentosa e faz coisas lindas em papelaria para festas, não deixem de conhecer o trabalho dela. E o Marcelo, vulgo marido, comanda a Quitanda Fácil que tem um sistema de entrega de verduras, frutas, e outros alimentos em casa, que eu uso e super recomendo. Além de trabalhar com buffet para festas. Maria e Isabella são fãs dos sucos naturais que ele faz!

Pessoal, só pra lembrar: não deixe e curtir a página do Manual da Família Moderna no Facebook!

3 comentários:

  1. E eu que sempre digo que não terei filho por pânico do parto (tenho medo ate de tomar vacina), me vejo aos prantos com esse relato!
    Na verdade tenho muita vontade sim de ter filho (se for menina já tem até nome), meu noivo tbm é louco para ter... mas meu pânico por parto sempre fala mais alto!
    Sensacional esse relato!
    Sem palavras!!

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  2. adorei o relato da nina. engraçado, sincero, marino.
    rosa é um bebê maravilhoso.
    amo tudo nessa família ;)

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  3. (comentei como hilan. mas não to achando o meu comentário de hilan)

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